Quando eu me propus a
Esse trabalho realizar
De recontar em rimas
As histórias do nosso lugar
Fui resgatando as lendas
Criando ganas de recontar
Eu não tinha tudo pronto
As ideias foram surgindo
Na fala dos anciões
Nas histórias que fui ouvindo
Foi o exercício da escuta
Que as ideias foram surgindo
Essa mesma foi fluindo
Diante de algo que me alertou
Em todos os outros cordéis
Escrevi sobre o que me atentou
Mas esse foi diferente
Pois veio na minha mente
Justamente aquilo que faltou
Meu instinto observou
Como que aqui e acolá
Dos nomes que apareciam
Alguns eu tinha ouvido falar
Registrados nas praças e ruas
Que formam o nosso habitat
Mas outros não estavam lá
E eu fui tomando ciência
Aguçada pela curiosidade
Que mora na minha essência
Nomes faltantes são femininos
Terá sido nosso destino,
Ou seria mera coincidência?
Se a gente age com decência
Falamos de desigualdade
Que permeia todo o mundo
Não só a nossa cidade
A questão é que a tal
História que é oficial
Nem sempre é a que conta a verdade
Em nome da legitimidade
Conta-se o que se escolheu contar
E os nomes das mulheres
Não vieram às ruas estampar
Mas seus legados não são esquecidos
Seus feitos são repetidos
Na oralidade popular
Aí eu decidi vir contar
Sobre um ou outro que ouvi
Honrando a lenda das ruas
Sendo fiel ao que senti
O que essas mulheres fizeram
E a força que elas tiveram
Em nome do povo daqui
Foi assim que eu decidi
Fazer da poesia uma cura
Mesmo que isso abalasse
um pouco nossa estrutura
era preciso que alguém falasse
feito água mole que pedra fura
que a história da nossa cidade
às vezes, ela se mistura
com a história da humanidade
e de uma mulher de pele escura
Estou falando de Luzia
Que aqui foi encontrada
Foi foco de vários estudos
Da América, a mais antiga ossada
E ela não foi a única
Por essas grutas encontradas
Mas ela virou referência
Modelo pra nossa ciência
Por ter sido a mais conservada
E essa vida é tão engraçada
Que quando atrás a gente vai
Pra entender o que se deu
Na internet, o resultado que sai
O primeiro que aparece
É que Luzia teve um “pai”
O cientista Walter Alves Neves
De fato, foi quem estudou
Cuidou, foi responsável
Nossa heroína nomeou
Mas será que você sabia
Que o crânio de Luzia
Foi uma mulher que achou?
Quem de fato a desenterrou,
Foi uma arqueóloga de renome
Sua alcunha era Annette
Não sei falar seu sobrenome
Levou o nome de Lagoa Santa
Pras suas aulas na Sorbonne
Vou seguindo os sinais
E buscando mais profundo
A vontade em descobrir
Às vezes num segundo
Uma nova história surge
Abre as portas pra outro mundo
E agora outro nome
Te convido a conhecer
Da incrível Vovó Santina que
Ajudou muitas crianças a nascer
Na roça, sem luz e sem feira
Era nas mãos das parteiras
Que chegavam os bebês
Muito antes de aqui ter
Um médico ou um hospital
Dona Lourdes e Dona Aramita
Numa sabedoria magistral
Mantinha em suas mãos
Ficha médica dos cidadãos
E curavam qualquer mal
Numa força ancestral
Elas plantaram a semente
Sem nunca reclamar,
Entregues de forma potente
Essas mulheres é que foram
A salvação da nossa gente
É preciso que se atente
Que não paremos de pesquisar
Pra ouvir atentamente
A sabedoria popular
Fosse na saúde, ou no ensino
História é substantivo feminino
Isso ninguém pode negar
E agora vou contar
De uma grande professora
Fosse nas missas ou nas escolas
Foi uma grande intercessora
Disciplina, conteúdo e fervor
Dona Marucas com amor
Foi uma mestra inspiradora
Foi uma grande transmissora
E, por isso, foi reconhecida
Diferente de tantas as outras
Obteve a fama merecida
Coisa grande, não ganhou
Mas seu nome nomeou
Uma escola conhecida
Foi a segunda mulher
cujo destino foi diferente
Na ação de uma outra mulher
Também forte e irreverente
Que inaugurou essa escola
Fazendo com que a história
Dessa vez fosse coerente
Uma senhora tão potente
Tenho orgulho de dizer
Que esse projeto aqui
Deu-me a honra de conhecer
Muito do que aqui falo
Foi a voz dela que veio me dizer
E pra quem queira saber
Eu digo aos quatro ventos
Dona Marlene Luzia
Guardiã do conhecimento
Em seu livro de memória,
O único da nossa história
Me encheu de embasamento
Pra eu vir nesse momento
Tudo isso vir narrar
Dona Marlene me recebeu
No conforto do seu lar
Artista, pedagoga e diretora
Além de tudo é escritora
Defensora desse lugar
Deu-me a honra de contar
A história da sua avó
Maria Clementina de Jesus
Que não trabalhou só
Juntamente com Dona Albina
Elas mudaram nossa sina
Pra Lagoa Santa ser melhor
Quando aqui ainda não era
Município independente
Messias Pinto Alves e Chico Rodrigues
Que eram políticos influentes
Receberam aqui no condado
Na época, o mais alto cargo
Que era chamado presidente
Era como o governador do estado
Que veio por aqui sondar
O que é que Lagoa Santa
Estaria a precisar
E os homens num rompante
Disseram “nada”, num instante
Orgulhosos da independência do lugar
Acontece que no lar
Você veja só que coisa
Preparando o almoço
Também estavam as esposas
Que irromperam pela sala
Logo pedindo a fala
Mais espertas que raposas
Exigiram uma escola
Pra “sá mestra” lecionar
E assim nossa cidade
Ganhou o primeiro grupo escolar
Ensinamento se difunde:
Hoje é a escola Dr. Lund
Onde muitos vão estudar
Quem sou eu pra contestar
Qualquer coisa nessa vida
Eu sou muito é atrevida
Uma pulguinha eu quis plantar
Messias Pinto Alves é avenida
Mas o nome das meninas
Você nunca tinha ouvido falar.
Não vim aqui denunciar
Nem fazer um grande alarde
Vim apenas expressar
O que em meu peito arde
E para sempre eu registrar
Antes que seja tarde e delas
ninguém mais possa lembrar
Desses nomes invisíveis
Que foram tão importantes
Em algum momento esquecidos
Ou feitos de coadjuvantes
Também merecem a história
Minhas rimas e as memórias
De Lagoa e seus habitantes.

Nenhum comentário:
Postar um comentário