terça-feira, 12 de abril de 2022

História é substantivo feminino

 


Quando eu me propus a

Esse trabalho realizar

De recontar em rimas

As histórias do nosso lugar

Fui resgatando as lendas

Criando ganas de recontar


Eu não tinha tudo pronto

As ideias foram surgindo

Na fala dos anciões

Nas histórias que fui ouvindo

Foi o exercício da escuta

Que as ideias foram surgindo


Essa mesma foi fluindo

Diante de algo que me alertou

Em todos os outros cordéis

Escrevi sobre o que me atentou

Mas esse foi diferente

Pois veio na minha mente

Justamente aquilo que faltou


Meu instinto observou

Como que aqui e acolá

Dos nomes que apareciam

Alguns eu tinha ouvido falar

Registrados nas praças e ruas

Que formam o nosso habitat


Mas outros não estavam lá

E eu fui tomando ciência

Aguçada pela curiosidade

Que mora na minha essência

Nomes faltantes são femininos

Terá sido nosso destino,

Ou seria mera coincidência?


Se a gente age com decência

Falamos de desigualdade

Que permeia todo o mundo

Não só a nossa cidade

A questão é que a tal

História que é oficial

Nem sempre é a que conta a verdade


Em nome da legitimidade

Conta-se o que se escolheu contar

E os nomes das mulheres

Não vieram às ruas estampar

Mas seus legados não são esquecidos

Seus feitos são repetidos

Na oralidade popular


Aí eu decidi vir contar

Sobre um ou outro que ouvi

Honrando a lenda das ruas

Sendo fiel ao que senti

O que essas mulheres fizeram

E a força que elas tiveram

Em nome do povo daqui


Foi assim que eu decidi

Fazer da poesia uma cura

Mesmo que isso abalasse 

um pouco nossa estrutura

era preciso que alguém falasse

feito água mole que pedra fura

que a história da nossa cidade

às vezes, ela se mistura 

com a história da humanidade

e de uma mulher de pele escura


Estou falando de Luzia

Que aqui foi encontrada

Foi foco de vários estudos

Da América, a mais antiga ossada

E ela não foi a única

Por essas grutas encontradas

Mas ela virou referência

Modelo pra nossa ciência

Por ter sido a mais conservada


E essa vida é tão engraçada

Que quando atrás a gente vai

Pra entender o que se deu

Na internet, o resultado que sai

O primeiro que aparece

É que Luzia teve um “pai”


O cientista Walter Alves Neves

De fato, foi quem estudou

Cuidou, foi responsável

Nossa heroína nomeou

Mas será que você sabia

Que o crânio de Luzia

Foi uma mulher que achou?


Quem de fato a desenterrou,

Foi uma arqueóloga de renome

Sua alcunha era Annette

Não sei falar seu sobrenome

Levou o nome de Lagoa Santa

Pras suas aulas na Sorbonne


Vou seguindo os sinais

E buscando mais profundo

A vontade em descobrir

Às vezes num segundo

Uma nova história surge

Abre as portas pra outro mundo


E agora outro nome

Te convido a conhecer

Da incrível Vovó Santina que

Ajudou muitas crianças a nascer

Na roça, sem luz e sem feira

Era nas mãos das parteiras

Que chegavam os bebês


Muito antes de aqui ter

Um médico ou um hospital

Dona Lourdes e Dona Aramita

Numa sabedoria magistral

Mantinha em suas mãos

Ficha médica dos cidadãos

E curavam qualquer mal


Numa força ancestral

Elas plantaram a semente

Sem nunca reclamar,

Entregues de forma potente

Essas mulheres é que foram

A salvação da nossa gente


É preciso que se atente

Que não paremos de pesquisar

Pra ouvir atentamente

A sabedoria popular

Fosse na saúde, ou no ensino

História é substantivo feminino

Isso ninguém pode negar


E agora vou contar

De uma grande professora

Fosse nas missas ou nas escolas

Foi uma grande intercessora

Disciplina, conteúdo e fervor

Dona Marucas com amor

Foi uma mestra inspiradora


Foi uma grande transmissora

E, por isso, foi reconhecida

Diferente de tantas as outras

Obteve a fama merecida

Coisa grande, não ganhou

Mas seu nome nomeou

Uma escola conhecida


Foi a segunda mulher

cujo destino foi diferente

Na ação de uma outra mulher

Também forte e irreverente

Que inaugurou essa escola

Fazendo com que a história

Dessa vez fosse coerente


Uma senhora tão potente

Tenho orgulho de dizer

Que esse projeto aqui

Deu-me a honra de conhecer

Muito do que aqui falo

Foi a voz dela que veio me dizer


E pra quem queira saber

Eu digo aos quatro ventos

Dona Marlene Luzia

Guardiã do conhecimento

Em seu livro de memória,

O único da nossa história

Me encheu de embasamento


Pra eu vir nesse momento

Tudo isso vir narrar

Dona Marlene me recebeu

No conforto do seu lar

Artista, pedagoga e diretora

Além de tudo é escritora

Defensora desse lugar


Deu-me a honra de contar

A história da sua avó

Maria Clementina de Jesus

Que não trabalhou só

Juntamente com Dona Albina

Elas mudaram nossa sina

Pra Lagoa Santa ser melhor


Quando aqui ainda não era

Município independente

Messias Pinto Alves e Chico Rodrigues

Que eram políticos influentes

Receberam aqui no condado

Na época, o mais alto cargo

Que era chamado presidente


Era como o governador do estado

Que veio por aqui sondar

O que é que Lagoa Santa

Estaria a precisar

E os homens num rompante

Disseram “nada”, num instante

Orgulhosos da independência do lugar


Acontece que no lar

Você veja só que coisa

Preparando o almoço

Também estavam as esposas

Que irromperam pela sala

Logo pedindo a fala

Mais espertas que raposas


Exigiram uma escola

Pra “sá mestra” lecionar

E assim nossa cidade

Ganhou o primeiro grupo escolar

Ensinamento se difunde:

Hoje é a escola Dr. Lund

Onde muitos vão estudar


Quem sou eu pra contestar

Qualquer coisa nessa vida

Eu sou muito é atrevida

Uma pulguinha eu quis plantar

Messias Pinto Alves é avenida

Mas o nome das meninas

Você nunca tinha ouvido falar.


Não vim aqui denunciar

Nem fazer um grande alarde

Vim apenas expressar

O que em meu peito arde

E para sempre eu registrar

Antes que seja tarde e delas

ninguém mais possa lembrar


Desses nomes invisíveis

Que foram tão importantes

Em algum momento esquecidos

Ou feitos de coadjuvantes

Também merecem a história

Minhas rimas e as memórias

De Lagoa e seus habitantes.



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