Como nossa cidade nasceu
Eu agora vou contar
É um conto interessante
Das magias desse lugar
Antes de tudo peço licença
Diante da avidez de narrar
E eu vou fazendo do meu jeito
Abrindo mão da falsa ética
Construindo, simbolicamente
Uma realidade imagética
Já aviso de antemão
Que escrevo sem precisão
Usando minha licença poética
Nossa história então começa
Com um homem explorador
Chamado Felipe Rodrigues
Que foi tropeiro e trovador
E em mil oitocentos e bolinha
Por aqui ele chegou
E tudo isso começou quando
Uma amizade que teve que terminar
E o tal Felipe saiu procurando
Explorando e caminhando
Ansiando por um lugar
Em que pudesse se estabelecer
Fazer sua vida e morar
E chegou a se machucar
De tanto que ele andou
Mas para o seu alívio
Ao longe ele avistou
Uma fonte de água jorrando
Quando nessas terras chegou
Suas botas, então, tirou
As pernas estavam feridas
E nas águas daquele poço
Aliviou sua lida
Suas feridas sararam
Suas pernas logo curaram
E ele se encheu de vida
Essa história é conhecida
Por toda comunidade
Seu Felipe aqui ficou
E com toda sagacidade
Fez dinheiro e fez nascer
A nossa bonita cidade
Alguns dizem ser verdade
Outros culpam o imaginário
Será que o poço era santo?
Ou será que foi o calcário,
Presente nas águas daqui
Que fizeram Felipe sorrir
Aliviando o seu calvário
E ele viu nesse cenário
Uma oportunidade de ganho
Vender a água pra beber
Ou pra usar pra banho
Há quem diga que foi ganância
Que fez a lagoa mudar de tamanho
Parece até um pouco estranho
Mas dizem que o poço virou lagoa
Por causa da propaganda
Feita por essa pessoa
Dizendo: a água daqui
É sagrada e é tão boa
Que de repente saíram barris
De água santa pra coroa
Explorador não anda à toa
Quer sempre mais lucrar
Decidiu com explosivos
O tal poço alargar
E eu não sei se é verdade
Foram as ruas da cidade
Que vieram me contar
Mas eu não nego que há
Uma versão de mais leveza
Dizendo que o poço alargou
Por obra da natureza
As águas da chuva, estocadas
iam criando a pequena represa
Diante de tamanha beleza
Na fartura do poço alargado
Foram chegando mais gente
Aqui nesse nosso condado
Viera mais que depressa
Embalados pela promessa
De se mudar pr’um lugar sagrado
Assim teria começado
Nossa cidade e tudo o que há
Felipe Rodrigues então seria
Um grande nome a se honrar
Por ter sido o pioneiro
Por ter feito muito dinheiro
E daqui, um bom lugar pra se morar
Decidi assim começar
Com a história de um tropeço
Dos pés de um tropeiro
Que se deu nosso começo
Mas na minha trajetória
Eu ouvi uma outra história
Que viraria essa do avesso
Vou contar porque mereço
Também poder dar vazão
Àquilo que me contaram
Me dando uma outra versão
Dos que antes aqui moraram
E alegam uma invasão
Terra vazia? Aqui era não
Foi o que me falaram
Os descendentes dos habitantes
Que antes aqui moraram
Com a chegada de tanta gente
Eles não comemoraram
Na verdade, se aterrorizaram
Quando seus olhos puderam ver
Viram a cena de um estranho
Do nada aqui aparecer
Tomando o lugar como seu
Sem que ter nada a perder
Numa atitude atrevida
Meteu o pé com ferida
Na água de todo mundo beber
E toda a gente que começou a aparecer
Em busca da água santa
Não sabiam que o fruto
Pertence àquele que planta
Ou é de todo mundo,
Não fica atendendo demanda
E de lá da terra do panda
Dos Estados Unidos e Inglaterra
Foram chegando vários gringos
Alcançando a nossa terra
E o nosso povo é pacífico
Senão ia ficar esquisito,
Os nativos partindo pra guerra
Quem acha que sabe, erra
Os gringos que chegavam
Muitas vezes nadavam pelados
Na busca da sua cura,
Sem saber que sua procura
Deixavam os ânimos exaltados
Muitos pais agoniados
Com medo de que crianças pudessem ver
Toda aquela gente pelada
Deram um jeito de proteger
Nas lendas que viram surgir
Sobre monstros que moraram ali
E a criança nem se atrever
E nem ao menos querer
Sair de casa pra nadar
Inventaram um monstro marinho
Pra criançada se assustar
E as pobres coitadas
Ficavam em casa trancadas
Sem ir na água para brincar
E é mesmo espetacular
Como um conto de várias facetas
Tem urgência de ser contada
Pra não morrer só na gaveta
Acredite quem quiser no que eu disse
Não sou anjo do apocalipse
Que veio aqui tocar trombeta
Na verdade eu sou profeta
Que caminha no passo contrário
Inventando um passado
Num mero conto literário
Só não se deixe enganar
Minha intenção não é narrar
Nada de um jeito arbitrário
Vou desfazendo o cenário
Como quem desfaz uma túnica
Numa ordem intuitiva
Uma certeza mediúnica
Que pode até ser incorreta
Mas que por si só acerta
Desacreditando a história única
Já cumpri a minha sina
E agora, quem quiser
Fica a vontade pra escolher
A versão que melhor lhe couber
Eu daqui vou escrevendo
Caso a caso, vou tecendo
Venha a história que vier.
Colando com quem mais fizer
Valer essa nossa missão
De dar voz a todo mundo
E ouvir sua versão
Honrando mais a escuta
Que a ciência e a precisão
No fundo, o coração vem
Me lembrar que pouco importa
Quem nós éramos antes
Dessa chegada meio torta
Bom que Lagoa Santa nasceu
E o propósito que tenho eu
É não fechar nenhuma porta
Vou regando a minha horta
De palavras, toda feita
Rezando pra que nossa cidade
Se dê por satisfeita
Em nome dela eu escrevi
E por ela, dei o melhor de mim
Como quem uma festa enfeita
Esse conto é como um fruto
Do qual eu mesma desfruto
Mesmo sem ser poeta perfeita.

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