terça-feira, 12 de abril de 2022

O Poço Santo

 


Como nossa cidade nasceu

Eu agora vou contar

É um conto interessante

Das magias desse lugar

Antes de tudo peço licença

Diante da avidez de narrar


E eu vou fazendo do meu jeito

Abrindo mão da falsa ética

Construindo, simbolicamente

Uma realidade imagética 

Já aviso de antemão

Que escrevo sem precisão

Usando minha licença poética


Nossa história então começa

Com um homem explorador

Chamado Felipe Rodrigues

Que foi tropeiro e trovador

E em mil oitocentos e bolinha

Por aqui ele chegou


E tudo isso começou quando

Uma amizade que teve que terminar

E o tal Felipe saiu procurando

Explorando e caminhando

Ansiando por um lugar

Em que pudesse se estabelecer

Fazer sua vida e morar


E chegou a se machucar

De tanto que ele andou

Mas para o seu alívio

Ao longe ele avistou

Uma fonte de água jorrando

Quando nessas terras chegou


Suas botas, então, tirou

As pernas estavam feridas

E nas águas daquele poço

Aliviou sua lida

Suas feridas sararam

Suas pernas logo curaram

E ele se encheu de vida


Essa história é conhecida

Por toda comunidade

Seu Felipe aqui ficou

E com toda sagacidade

Fez dinheiro e fez nascer

A nossa bonita cidade


Alguns dizem ser verdade

Outros culpam o imaginário

Será que o poço era santo?

Ou será que foi o calcário,

Presente nas águas daqui

Que fizeram Felipe sorrir

Aliviando o seu calvário


E ele viu nesse cenário

Uma oportunidade de ganho

Vender a água pra beber

Ou pra usar pra banho

Há quem diga que foi ganância

Que fez a lagoa mudar de tamanho


Parece até um pouco estranho

Mas dizem que o poço virou lagoa

Por causa da propaganda

Feita por essa pessoa

Dizendo: a água daqui

É sagrada e é tão boa

Que de repente saíram barris

De água santa pra coroa


Explorador não anda à toa

Quer sempre mais lucrar

Decidiu com explosivos

O tal poço alargar

E eu não sei se é verdade

Foram as ruas da cidade

Que vieram me contar


Mas eu não nego que há

Uma versão de mais leveza

Dizendo que o poço alargou

Por obra da natureza

As águas da chuva, estocadas

iam criando a pequena represa


Diante de tamanha beleza

Na fartura do poço alargado

Foram chegando mais gente

Aqui nesse nosso condado

Viera mais que depressa

Embalados pela promessa

De se mudar pr’um lugar sagrado


Assim teria começado

Nossa cidade e tudo o que há

Felipe Rodrigues então seria

Um grande nome a se honrar

Por ter sido o pioneiro

Por ter feito muito dinheiro

E daqui, um bom lugar pra se morar


Decidi assim começar

Com a história de um tropeço

Dos pés de um tropeiro

Que se deu nosso começo

Mas na minha trajetória

Eu ouvi uma outra história

Que viraria essa do avesso


Vou contar porque mereço

Também poder dar vazão

Àquilo que me contaram

Me dando uma outra versão

Dos que antes aqui moraram

E alegam uma invasão


Terra vazia? Aqui era não

Foi o que me falaram

Os descendentes dos habitantes

Que antes aqui moraram

Com a chegada de tanta gente

Eles não comemoraram


Na verdade, se aterrorizaram

Quando seus olhos puderam ver

Viram a cena de um estranho

Do nada aqui aparecer

Tomando o lugar como seu

Sem que ter nada a perder

Numa atitude atrevida

Meteu o pé com ferida

Na água de todo mundo beber


E toda a gente que começou a aparecer

Em busca da água santa

Não sabiam que o fruto

Pertence àquele que planta

Ou é de todo mundo,

Não fica atendendo demanda


E de lá da terra do panda

Dos Estados Unidos e Inglaterra

Foram chegando vários gringos

Alcançando a nossa terra

E o nosso povo é pacífico

Senão ia ficar esquisito,

Os nativos partindo pra guerra


Quem acha que sabe, erra

Os gringos que chegavam

Muitas vezes nadavam pelados

Na busca da sua cura,

Sem saber que sua procura

Deixavam os ânimos exaltados


Muitos pais agoniados

Com medo de que crianças pudessem ver

Toda aquela gente pelada

Deram um jeito de proteger

Nas lendas que viram surgir

Sobre monstros que moraram ali

E a criança nem se atrever

E nem ao menos querer

Sair de casa pra nadar

Inventaram um monstro marinho

Pra criançada se assustar

E as pobres coitadas

Ficavam em casa trancadas

Sem ir na água para brincar


E é mesmo espetacular

Como um conto de várias facetas

Tem urgência de ser contada

Pra não morrer só na gaveta

Acredite quem quiser no que eu disse

Não sou anjo do apocalipse

Que veio aqui tocar trombeta


Na verdade eu sou profeta

Que caminha no passo contrário

Inventando um passado

Num mero conto literário

Só não se deixe enganar

Minha intenção não é narrar

Nada de um jeito arbitrário


Vou desfazendo o cenário

Como quem desfaz uma túnica

Numa ordem intuitiva

Uma certeza mediúnica

Que pode até ser incorreta

Mas que por si só acerta

Desacreditando a história única


Já cumpri a minha sina

E agora, quem quiser

Fica a vontade pra escolher

A versão que melhor lhe couber

Eu daqui vou escrevendo

Caso a caso, vou tecendo

Venha a história que vier.


Colando com quem mais fizer

Valer essa nossa missão

De dar voz a todo mundo

E ouvir sua versão

Honrando mais a escuta

Que a ciência e a precisão


No fundo, o coração vem

Me lembrar que pouco importa

Quem nós éramos antes

Dessa chegada meio torta

Bom que Lagoa Santa nasceu

E o propósito que tenho eu

É não fechar nenhuma porta


Vou regando a minha horta

De palavras, toda feita

Rezando pra que nossa cidade

Se dê por satisfeita

Em nome dela eu escrevi

E por ela, dei o melhor de mim

Como quem uma festa enfeita

Esse conto é como um fruto

Do qual eu mesma desfruto

Mesmo sem ser poeta perfeita.


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